quarta-feira, maio 03, 2006

Dê pressão

Dê pressão
Com a mão
Empurre lá pro chão

Curve os ombros
Fique mudo
Esprema mais que tudo

Molhe o rosto
Encolha o corpo
Seja o próprio dorso

Faça força
Force o fato
Jogue lá no mato

Meta-se na fossa
Nade até o fundo
Afunde nesse mundo
...

Dê de ombros
Molhe o dorso
Jogue tudo

quarta-feira, abril 26, 2006

(In)Sônia II

Recomendo leia '(In)Sônia' antes.
Nix e Hipnos - "Night and Sleep" - Evelyn de Morgan


Ah, Sônia!
Novamente perturbada
Pelas vozes
Da madrugada
De dentro da
Alma aflita

Flutua sobre a mole
Espuma sob o
Tecido e o comando
Dos milhares de
Saltitantes bichinhos

E as vozes silenciosas
Em coro
Ancoram a ordenação:
Não durma senhora,
Que não é hora!

Submissa, Sônia
Sacrifica seu sono
Saboreando o sofrimento

O corpo se cansa
Com a involuntária
Dança pela
Ária dos carneirinhos
promovida

E os pensamentos,
Desatinos da mente,
Atormentam em
Tormentas
Arrastando areia
Para os olhos
Das rivais pálpebras

Mas afinal,
Sônia desperta da
Escuridão em claro
Pela claridade heróica
Que invade o quarto

domingo, abril 23, 2006

Enfermidade Viciada


Um olhar. Palavras. Rubor.
Suspiro. Sussurro. Calor.
Um toque. O vírus. Pavor.
Saliva. Delícia. Olor.
Cresta a pele. Alastra. Arrasa.
Invade. Consome. Possui.

Eternidade. Momento. Minuto pequeno.
Sensação. Sentidos. Sem sentido.
Ironia. Riso. Nostalgia. Choro. Harmonia.
Ansiedade. Ânsia. Agonia.
Encontro. Tremor. Taquicardia.

Escutar. Mais. Vezes. Emoção.
Contar. Mais. Menos. Fração.
Calar. Colar. Selar. Tecer.
Receber. Doar. Doer. Fenecer.

Respire fundo. Aspire. Ardam as narinas!
Injete. Ejete. Se encolham as barrigas!
Lá se vão os laços... Lá se via!

Febre. Suor. Delírio.
No leito. Um jeito. O fim.




Este texto foi escrito há uns 4 anos. Foi o máximo que já consegui sobre o tema.

domingo, abril 16, 2006

Busca

Não há melancolia que me faça
Fazer poesia
Desfaço-me e(m) nada...

Onde estais, palavras?
Tanto tento e nenhuma lavra...

Não há milagrosas lágrimas
Nem escassos sorrisos
Ou ausentes abraços

(Pégasus de asas quebradas!
Tenho sede...)

Não há infâncias perdidas
Nem países em guerra
Ou alguma injustiça na Terra

Lavro...

Onde estais, palavras?

Nenhuma lavra...

Cuidarei então do enfermo alado
E beberei em Hipocrene
Buscando encontrá-las

domingo, abril 02, 2006

Poeta em fases

É poeta
Quando não há idéia
Nova
Sem luz
Sem tema
Sem graça

E chora
Como adolescente
Crescente
Brincando
Vivendo
Aprendendo

E explode
Nadando na fonte
Cheia
De cores
De flores
De amores

E cai
Num estado
Minguante
Profundo
Eterno
Vazio

Com todas as dores do mundo,
É poeta num ciclo infinito ...

terça-feira, março 28, 2006

Eu como gente

Eu como gente
Crua mesmo
Verdade
Crua e nua

Que arrota
Que transpira
Que escarra
Que expele

Pele e carne
Chupo o osso
Duro
Osso de roer

Que esvazia
Eu me esbaldo
Que alivia
E faço um caldo

Eu bebo e como
E como
A essência e tudo
Essencial

E saboreio as entranhas
Estranhas?
Tudo que há de bom!
E vivo...

Eu como
Gente
Como sim
Como assim

Como.
Nham...
Assim.

sábado, março 18, 2006

Como as sombras são



A reflexão de uma sombra - por Ellemos


Queria saber por que as sombras nos saem dos calcanhares. E por que elas não nos saem dos calcanhares. Indesejadas como as sombras são. De um lado ou de outro, menores ou maiores, inteiras ou quebradas por quinas, mais ou menos nítidas. Não importa. Estão sempre conosco.

O problema não consiste apenas em sabermos que estamos sempre sendo seguidos. O pior de tudo é que, às vezes, as sombras querem nos atrapalhar. Às vezes tentam nos confundir. Traiçoeiras como as sombras são. Traiçoeiras sim, porque elas são porque somos. Dependem de nós. Até na forma. E sabem disso.

De qualquer maneira, parece melhor tentar não temê-las, mas quem sabe, ignorá-las. Aprender a conviver. Porque este não é o tipo de coisa que depende do nosso querer e do nosso lutar. Elas estão aqui. E ponto.

Dependem de nós. São escuras, achatadas, estão sempre por baixo. Saem de nossos calcanhares. Não, não devemos temê-las. Definitivamente. Tenhamos compaixão.

Pensando bem, há um jeito de eliminá-las. As sombras se vão quando está escuro. Sim, as sombras são porque temos luz.

Não olhe agora. Você não está só. E nem adianta correr. Sua sombra seguirá você. Se houver luz no seu caminho.

terça-feira, março 07, 2006

Antes do Encontro

Espera - Mireya Juárez


Olha


Bem
Faltam
Dois
Para
Dez
Espero
Vem
Conhecer
Te
Quero
Bem

quarta-feira, março 01, 2006

Bananas como fim


Há dias minha coluna está me matando. Minha preguiça gostou da brincadeira e resolveu ajudar. Todos os dias deixava para o dia seguinte a idéia dos exercícios físicos. Era exatamente isso: adiava a idéia.

Hoje acordei cedo. Olhei para as bananas na fruteira, hesitei, ignorei. Fiquei com meu leitinho. Arrastando a preguiça, consegui descer. Ainda não tinham soado as sete badaladas e quatro pessoas já suavam. Com que porquê estariam aquelas pessoas malhando em pleno amanhecer de uma quarta-feira de cinzas? Saúde ou beleza? Talvez ambos. Desejei uns quatro bons-dias com toda a minha educação e encarei os saudosos aparelhos de ginástica que já nem lembrava como usar. Se é que um dia soube.

Alonguei, pedalei, puxei... Fui para a esteira. Comecei lentamente e fui acelerando o passo ao longo da caminhada. Caminhei pouco mais de 1km sentindo-me uma imbecil. O que estaria sentindo o rapaz da esteira ao lado que corria havia mais de 20 minutos? Que sensação estranha! Andávamos, corríamos, andávamos em direção à parede ou ao espelho e não chegávamos nem a este nem àquela. Olhando com nenhuma atenção para a TV ligada.

É para mim, a esteira, uma metáfora da vida. Pelo menos da minha. Talvez de muita gente. Faltam paisagens. Falta um fim. Saúde ou beleza? Um fim.

Lembro-me agora da velhinha que apareceu ontem no noticiário. Cento e vinte e seis anos! E uma possibilidade se me apresenta. A possibilidade de viver ainda cem anos. (Mas que não sejam de solidão). Cento e vinte e seis anos! Aposto que aquela velhinha nunca subiu numa esteira de academia. Seu segredo? Uma ironia. Bananas! Todos os dias. Como meio.

Saúde! Beleza! Um fim! Bananas, que sejam. Para um século de caminhada.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

(In)Sônia

Nix e Hipnos - "Night and Sleep" - Evelyn de Morgan


Vozes silenciosas
Em uníssono
Perturbam o sono de Sônia:
Acorde, senhora,
Que já é hora
De não dormir!

Há essa força
Repulsiva entre as pálpebras
Que não as deixam se unir

Sílabas dos pensamentos
Sambam na mente
Dessincronizadamente

E as pupilas
Dilatam-se para a pouca luz
Refletida do teto

Sete mil setecentos e cinqüenta e seis
Carneirinhos malvados
Acham tudo engraçado
E saltam se rindo
Da situação de Sônia

E no seu eterno cinismo
Continuam os bichinhos
Cantando um refrão:
“Vire-se, revire-se...”

E Sônia obedece
Entre o colchão e o lençol amassado
Durante toda a madrugada

Mas o amigo Despertador
Traz a Sônia a salvação:
São seis da manhã, senhora!
Já é hora de acordar!


Este poema foi idealizado e escrito em parte em algum momento da última madrugada.

terça-feira, janeiro 31, 2006

Produto de Insônia

A CALMA COMO TSCHAIKOWSKY OU A GITA.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Como os sentidos nos enganam



Vi um caminhão voando. Foi a segunda vez. Mas era um helicóptero e não chamei a mídia.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Sexta-feira 13 de lua cheia

A lua reflete, estourando de tão cheia: "Acho que comi demais!". São Jorge dá uma risadinha fingindo que não ouviu. À meia-noite ela vomita o lobisomem e as outras lendas...

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Abraços

Abraços virtuais aos amigos,

virtuais, reais, passantes, invisíveis, de sangue. Aos que me fizeram rir ou chorar, devanear ou refletir. A todos que, de alguma maneira, me deixaram um pouco mais gente ao longo desse ano.

E, nesses tempos terríveis, conservemos e cultivemos o tesouro da caixinha de Pandora.

Sucessos em 2006!

A cada um, um real abraço, com meu carinho e minha gratidão.

domingo, dezembro 11, 2005

D-i-f-e-r-e-n-ç-a-s


Esses humanos prismáticos
Querem a todo custo espalhar
E depois desagregar

Isso porque ignoram que
Um na frente d’outro
Faz uno o que apartado havia
Como tão cedo Isaac aprendia

“Faremos um domingo
Pra todo homem vivente?
Não. Só pra gente da gente!”

E Apolo ainda os presenteia...
Surge a deusa multicor!
As mentes são aquecidas,
Mas as idéias fortalecidas...

O belo são as diferenças!
E a igualdade.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Leva jeito




Hoje usarei este espaço com um propósito um pouco diferente. Vou relatar um ocorrido que me deixou muito contente e que preciso dividir com os invisíveis.

Fui buscar uns trabalhos que entreguei no final do ano passado para participar do Projeto Nascente. Trata-se de uma espécie de concurso, com o objetivo de incentivar alunos da USP ligados às mais diversas formas de expressão artística: teatro, cinema, música, texto, etc. Então, entreguei alguns textos que chamei de poesias. Não foi difícil selecioná-los para o concurso, posto que eram praticamente os únicos que escrevera. Entreguei-os em três vias, como dizia uma das regras do edital. Cada via seria dada a um diferente avaliador.

Obviamente, não fui premiada. Mas posso dizer que recebi um prêmio de consolação ao receber de volta os trabalhos. Fiquei surpresa ao ver que em uma das cópias estavam esquecidas a lápis as seguintes palavras: “leva jeito”. Agora, o que é ruim nesta história, é que não vou conseguir parar tão cedo com este meu vício...

Três dos seis textos com que participei do concurso já foram publicados aqui: Amor de filha (de mãe), Homenagem à mais versátil parte de nossa máquina e Arte. Os outros três são Prazeres, Um quarto e Enfermidade Viciada, os quais publicarei futuramente.
A próxima postagem será D-i-f-e-r-e-n-ç-a-s, texto que está sendo editado.

Abraços fortes aos caríssimos invisíveis!

sexta-feira, novembro 18, 2005

Figuras

Idéia. Por Ellemos.

Cole figurinhas. Infalível!
Aconselhou-me o filho de João
Só assim todos poderão
Ver o que é invisível

Pus-me a meditar:
Que tipo de figura
O visitante procura?
Até pensei num Renoir

Figurinha repetida, minha cara!
Alertaram-me os botões
Milhões de idéias, bilhões!
Preciso de uma mais rara

Idéia louca, idéia boa, idéia genial!
Invoquei a mariposa alva e doce
Mas, como se o primeiro vôo fosse
Voou ao descanso final

Vieram perigosos delírios
Ali do pé da macieira
Menina, quanta besteira!
Hoje deleites, amanhã martírios...

Mais uma vez tentei
Encontrar com meu próprio esforço
A figura, ou um esboço.
Andei e pensei e falhei

E segui meu caminhar
Pelas pontes do pensamento
Mas o pífio pavimento
Impediu-me continuar

Ei, mas veja! Atenção!
Há aqui mais de uma dúzia
Que beleza! Quanta astúcia!
Não foi o trabalho vão

Clap, clap, clap! Façamos uma homenagem!
Mesuras!
Às figuras!

À linguagem!

...

Agora, caro invisível
Espero fiques satisfeito
Fiz o que pôde ser feito
Peço-te: sê flexível

quarta-feira, novembro 09, 2005

Diálogo no banheiro feminino da universidade

- O que você está achando das manifestações? Me empresta o batom?
- Qual?
- Um que combine com o símbolo de nossa campanha.
- Sabe que este tipo de coisa não é muito minha praia, né? Nossa, como meu cabelo está rebelde hoje!
- Olha, eu não sou sindicalizada e essas coisas, mas particularmente acho que devemos lutar pelos nossos direitos. Obrigada.
- De nada. Preciso fazer xixi. Não sei, sempre vira bagunça... E acredito haver outros meios de reivindicarmos.

Ouve-se a voz do militante sobre o palanque ambulante: “Parem com as aulas, professores! Pela educação deste país!”

- Definitivamente a causa é justa. Devemos nos unir para fazer um Brasil melhor. E como é fofo este militante!
- É, devo admitir que concordo com este seu ponto de vista.

- Hihihi...

sábado, outubro 29, 2005

O Cubo

Do centro de um cubo infinito oco
Ecoa um grito retumbante surdo
Som do fundo de uma existência
Hesitante, nula, vazia

Vozes roucas vêm dos seis
Sete vezes amplificadas
Plastificadas, terríveis, insanas
Insinuam a falsa alegria

Orgia de ondas vibrantes
Reverberam e no ponto se unem
Anulam o grito que chega às faces
Faz-se, assim, a solidão

Sólido permanece o cubo
Quando o grito emudece
Fenece o que já não havia

Ouvem-se somente os sinos.

(Abril de 2005)

Recados ao físico leitor:
1 - Qualquer semelhança com Física do Estado Sólido é mera coincidência. Mas se não fosse, qual seria a estrutura da rede cristalina? E o parâmetro de rede?
2 - Na dúvida, é licença poética!

Homenagem à mais versátil parte de nossa máquina

Cumprimenta, mede comprimento
Pede, oferece, aceita, dá
Arranca os pêlos, deixa nos pêlos
Ajuda, atrapalha
Faz, desmancha
Transpira, treme
Aquece, é fria
Afaga, toma o pirulito
Vê, fala, lambe, sente
Substitui o olho, substitui o coito
Lava a outra, a outra suja
Lava a roupa suja
Tira a vida, tira vida
Abre, fecha, solta, segura
Causa dor, anestesia
Amassa, modela, destrói, constrói
Quebra, conserta, corta, costura
Rasga, emenda, remenda
Empurra, puxa
Salva, valsa
Dança, canta, toca
Escreve, lê
Ofende, agrada
Atira, agarra
Esconde, mostra
Usa luva, abusa
Aponta, apronta
É de vaca, boba, pata
Paga, pega, peca, pica
Coça, soca, saca, mata
...
Fica no extremo braço, tem cinco dedos


(Este é antigo)